Meditar: Um processo de desconstruir e construir a si mesmo
Depois de 20 anos meditando e buscando mestres que pudessem me trazer respostas sobre o sentido da vida e as circunstâncias que nos acometem, me bateu um certo cansaço de todas essas práticas, crenças e dogmas que, de certa forma, ditam as regras de como viver.
Cansei. Confesso que cansei do “mundo do Yoga” — não da prática em si, mas de tudo o que ouço sobre a filosofia. Mas calma, nada foi em vão. Só sinto que a busca externa acaba aqui; que não há mestre, religião ou sistema filosófico que me levará a essa realização. O caminho se molda e muda em cada fase da vida. Cada momento é único, e Deus sempre esteve e estará presente em todos eles. Cabe a nós reconhecer a mão do Criador em tudo.
Chega um momento da vida e da prática em que a gente entende: a resposta está dentro. E, para alcançá-la, preciso desconstruir tudo o que aprendi. Preciso arrancar as roupas que vestem a alma para poder vê-la de forma real, nua e crua.
Essa desconstrução é um processo mais calmo que a construção. Levei anos para construir o indivíduo que sou hoje, para entender meu Karma e, de certa forma, me libertar da dor que me aprisionava desde o nascimento. Levei anos para perdoar o outro e a mim mesma. Anos para sair do meu próprio julgamento e libertar o outro também desse peso de “certo e errado” que minha mente projeta toda vez que encontro algo que me desagrada, me provoca repulsa ou inveja.
Sim, enxergar todas essas características ruins em mim foi a parte mais difícil do despertar espiritual. Durante meu processo iniciático de meditação, quase enlouqueci. Se não tive uma crise psicótica — daquelas que tiram o chão e o senso da realidade — não teria outra palavra para definir tudo o que senti.
Todos pregam nas redes sociais que meditar é encontrar a paz. Minhas meditações trouxeram verdades que doíam, que me dilaceravam por dentro. Sempre me incomodou venderem a meditação apenas como paz. Meditar, para mim, sempre foi caótico, difícil e transformador. Um processo de morte, de troca de pele.
No fundo, tudo isso leva a Ti, leva à paz. Mas para encontrar essa paz, a gente atravessa a sombra, os medos e as ilusões. Atravessamos toda a confusão que há em nós. E talvez, depois de anos meditando sem desistir, a paz finalmente chegue. Nesse momento, você está pronto para abandonar tudo o que demorou uma vida inteira construindo. Abandonar até mesmo a prática que levou anos para lapidar. Abandonar a imagem que criou de si mesmo. Abandonar os novos valores que adquiriu. Abandonar tudo — até mesmo você.
Neste instante, você entende que somos eternas crianças nesse jogo da vida. Quanto mais alimentamos a criança interior, mais próximos do Divino nos tornamos. A criança só quer colo e afeto; quer amar e ser amada. E, nesse processo, a gente entende que estamos aqui para despertar para o Amor que nos une.
Wal Nunes

