A Droga dos Deuses

Nutrir a Alma Morei na Tailândia quando tinha 28 anos.Foi, sem dúvida, uma das viagens mais marcantes da minha vida.Às vezes, nem eu acredito que vivi tudo aquilo. Na época, eu estava voltando da Austrália e fazendo meu caminho de…

Nutrir a Alma

Morei na Tailândia quando tinha 28 anos.
Foi, sem dúvida, uma das viagens mais marcantes da minha vida.
Às vezes, nem eu acredito que vivi tudo aquilo.

Na época, eu estava voltando da Austrália e fazendo meu caminho de volta ao Brasil — sem pressa. Podia levar um ano, dois meses, o tempo que a vida quisesse.
Estava com o coração partido.
Havia saído de um relacionamento com o desejo de me reencontrar — de descobrir o que realmente me movia.
Era uma fase de desbravar o mundo e, ao mesmo tempo, a mim mesma.

Minha professora de Yoga, na Austrália, havia notado minha dificuldade em ser tocada.
Ela me disse: “Acho que a Thai Massagem vai te fazer bem.”
Foi assim que cheguei a Chiang Mai, onde conheci uma senhora incrível com quem estudei por 45 dias.
Um cuidado sem fim.
Um dia, ela olhou nos meus olhos e disse:
— “Acho que você deveria conhecer Koh Chang Island. Lá tenho alguns amigos que você vai gostar de conhecer.”

E lá fui eu — para uma ilha quase deserta.
Eu já estava cansada das rotas de turistas.
Depois de quase dois anos viajando entre Índia, Austrália e o sudeste asiático, o que mais via eram estrangeiros buscando sexo e drogas baratas.
Koh Chang ficava longe desse roteiro, e era exatamente para lá que eu precisava ir — para bem longe de gente perdida… assim como eu.

Cheguei à ilha e aluguei um bangalô à beira-mar.
Na primeira noite, me arrependi: a maré subia tanto que eu dormia praticamente dentro do oceano.
Tudo o que eu pensava era: “Se vier um maremoto, vou ser a primeira a morrer. Por que alguém construiria um bangalô no meio do mar? E por que eu, justo eu, escolheria ficar nele?”
Mas resolvi encarar o medo.
E fiquei.

Aos poucos, fui conhecendo o povo local e os amigos da minha professora — um grupo animado que adorava cantar Raul Seixas, e, aparentemente, não gostou muito do meu tom desafinado.
Viramos amigos.
Uma noite, me convidaram para uma festa no salão principal.
Para minha surpresa, o local estava cheio — uns dez turistas, alguns locais, um casal de canadenses, dois argentinos, um australiano e outros rostos perdidos que não me lembro mais.

Foi então que descobri: era o ritual do ópio.
Fiquei em choque.
Como minha professora sabia que esse era meu desejo secreto? Eu nunca havia dito a ela.

Antes de viajar, eu sempre pesquisava as leis de cada país.
Sabia que a Tailândia era rígida — estrangeiros pegos com drogas podiam ser presos, multados ou até condenados a longas penas.
Havia também histórias de turistas dopados, roubados, violentados.
Por isso, nunca passou pela minha cabeça procurar drogas ali.

Mas o universo tem seu próprio jeito de conduzir as coisas…
E lá estava eu, numa ilha isolada, onde, todas as noites às dez, acontecia o ritual do ópio.

Foram 21 dias de imersão.
Um estado de meditação tão profundo que nada mais importava.
Lembro de cada detalhe: as cores, os sons, o modo como preparavam o ópio, o instante em que o corpo começava a flutuar.
Era uma explosão de silêncio.
Qualquer desconforto desaparecia, o tempo deixava de existir.
Eu viajava por mundos paralelos — onde passado, presente e futuro se dissolviam.
Passava as noites acordada, meditando.
Já não temia o mar.
Eu me deixava levar por ele.

Comecei a escrever.
E escrevia sem parar.
Durante aqueles 21 dias em Koh Chang, aprendi a meditar de verdade — a fazer viagens astrais, a me observar além do corpo.
Sim, o ópio foi o portal. Mas talvez eu nunca tivesse dominado essa arte sem ele — a droga dos deuses, como eles chamavam.

Nunca fui tão feliz quanto fui naquela ilha.
Sozinha, com os pés na terra, o sol na pele, o mar e ópio como canal transcendente de meditação.
De dia, eu apenas vivia.
À noite, eu fumava e meditava por horas. Às vezes, oito seguidas.

Até que chegou o momento de partir.
Até a paz cansa.
E eu já tinha vivido o bastante de beleza, silêncio e transcendência.

Deixei a ilha.
Mas ela nunca saiu de mim.

Dez anos depois, encontrei meus diários.
E percebi: eu havia vivido tudo o que havia escrito ali.
Meditar e escrever — é Magia Pura.

Wal Nunes

Posts recentes

Compartilhe esse post

Facebook
WhatsApp
Email

Aqui está mais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *