O Sertão e o Yoga

Nasci e fui criada no sertão de Minas Gerais — ouvindo histórias de milagres e, ao mesmo tempo, vendo um mundo agressivo à minha volta.O sertão é um lugar duro — e ele endurece a gente.Você aprende desde cedo que…

Nasci e fui criada no sertão de Minas Gerais — ouvindo histórias de milagres e, ao mesmo tempo, vendo um mundo agressivo à minha volta.
O sertão é um lugar duro — e ele endurece a gente.
Você aprende desde cedo que honra e justiça devem ser feitas pelas próprias mãos. É um lugar onde a mulher ainda não tem vez.

O sertão me fez forte — uma força fora do comum — mas também me deixou dura.
Me fez um macaquinho reativo, pronta para atacar qualquer pessoa que atravessasse o meu caminho.
Essa coisa mística e “hippie chique” do yoga não combina comigo.
A vida não me fez leve, muito menos menininha.
Quem me conhece sabe: eu não sou uma professora com o perfil tradicional do yoga.
Não faz o meu estilo falar baixinho, devagar — eu não fui criada assim.
Eu sou dura. O sertão me fez assim.

E o yoga?
Por que o yoga veio parar na minha vida?

O yoga foi a única forma que minha terapeuta encontrou para eu não enlouquecer, não cair nos remédios e não virar uma pessoa engessada pela vida e pelos traumas que o sertão me trouxe.
Eu era uma jovem que não dormia, com um turbilhão de coisas na mente.
Tinha vergonha de mim mesma — da minha sexualidade, da minha fala e da vida que eu levava.
Eu fugia de mim.
Não conseguia estar na própria pele.
Me drogava para esquecer minhas dores e meus problemas.
Eu odiava o mundo e tudo o que existia nele.
Viajava sozinha, me colocava em riscos, ia para países em guerra.
Eu era uma pessoa totalmente sem noção.
Simplesmente vivia com a mochila nas costas, esperando o próximo destino, querendo viver novas aventuras.

Eu odiava homem — odiava qualquer coisa que me olhasse atravessado — e estava sempre pronta para “matar” quem quer que fosse capaz de tirar a pouca paz de espírito que eu tinha.

O yoga veio como um grito de desespero: ou me achava, ou me perdia de vez.

No início, eu odiava.
Mas como a vida que eu levava não era das melhores, qualquer coisa que pudesse ajudar era melhor do que continuar naquele lugar.
E foi por isso que continuei.

Continuei mais por pirraça com a minha própria angústia, por revolta com uma vida que não parecia ter salvação.
Continuei para provar pra mim mesma que a vida é realmente injusta — e que certas coisas não mudam.
Afinal, não seria uma prática mística do Oriente que iria me mudar.

E não é que mudou?

Nem preciso dizer como mudei.
O mundo interno mudou.
Meu mundo floresceu.
E hoje, o sertão que há em mim já não é tão duro assim. 🌸

Wal Nunes

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