Onde aprendi a morrer para renascer
Viajar sempre foi parte do meu destino. Sou neta de cigano e carrego no corpo esse instinto de andar, de não pertencer a um único lugar. Minhas primeiras viagens foram ainda criança: horas a cavalo entre fazendas do sertão de Minas, subindo em paus de arara, atravessando estradas de terra. Cresci sabendo que movimento também é raiz.
No início de 2023, durante um retiro de meditação, uma aluna me falou de um lugar mágico chamado Terra Ronca, em Goiás. Ela falava de portais que se abriam para mundos paralelos e passagens subterrâneas que ligavam tempos e espaços distantes. Eu já tinha passagem aéria para Chapada dos Veadeiros, mas algo me chamava para conhecer aquele mistério.
Foram apenas sete dias — mas intensos como sete existências. Dentro das grutas, cada respiração abria uma memória diferente. Sonhava com o Egito, com a Índia, com mestres que reconhecia como antigos. Morria em sonhos, em visões, em memórias guardadas. E, na dor dessas mortes simbólicas, aprendia a renascer.
Foi ali que Shiva se apresentou, com toda a sua força transformadora. Eu me rendi.
Terra Ronca não foi apenas uma viagem, mas um rito de passagem.
Entre as histórias de fé do povo local, as romarias que ecoam dentro das cavernas e a presença acolhedora de Seu Ramiro e sua esposa — que me lembravam tanto as fazendas e olhares da minha infância em Minas — percebi que Terra Ronca me lembrava de casa. A casa mais distante e, ao mesmo tempo, mais íntima que já visitei: o meu próprio interior.
Essa experiência me ensinou a morrer para deixar partes de mim nascerem novamente.
E é por isso que, a cada domingo, vou compartilhar aqui histórias de viagens que não são apenas deslocamentos, mas jornadas da alma.
Wal Nunes

